
A avó que rasteja na estrada e o novo fôlego sangrento de 'Evil Dead'
O sexto filme da franquia abandona o humor pastelão e mergulha no terror corporal extremo, enquanto o género conquista recordes de bilheteira e de crítica.
Uma perna decepada para escapar ao incêndio. O rasto de sangue no asfalto. A idosa Polly, possuída por um demónio, rasteja até que uma automobilista se detém para ajudar. “Ela roubou-me as pernas”, murmura, antes de se lançar sobre a boa samaritana: “Mas as tuas servem perfeitamente.” A cena, que surge a meio dos créditos finais de Evil Dead Burn, condensa o espírito do sexto capítulo da saga criada por Sam Raimi: um terror sem piedade, onde a violência grotesca se sobrepõe a qualquer subtileza narrativa.
Realizado pelo francês Sébastien Vaniček, o filme retoma o fio deixado por Evil Dead Rise (2023) e centra-se em Alice (Souheila Yacoub), uma viúva que, após a morte do marido, se vê encurralada com a família dele numa casa isolada. O irmão mais novo, Joseph, descobre as pesquisas do avô sobre o Necronomicon e a Adaga Kandariana, despertando as entidades conhecidas como Deadites. A partir daí, o argumento serve sobretudo de pretexto para uma sucessão de mortes inventivas: um encosto de cabeça de automóvel transforma-se em estaca, um corta-sebes vira arma de defesa, um cão é esfaqueado com um garfo. A brutalidade, notam críticos francófonos, ecoa a tradição do terror extremo francês, mas sem a densidade psicológica de obras como Hereditário.
A longa-metragem insere-se num momento de euforia para o cinema de terror. Nas últimas semanas, as salas foram ocupadas por fenómenos como Obsession, que arrecadou mais de 400 milhões de dólares com um orçamento de 750 mil, e Backrooms, a produção independente mais rentável de 2026, que regressa agora em versão alargada. Evil Dead Burn, com um custo estimado de 20 milhões, aponta para uma estreia entre 20 e 30 milhões nos Estados Unidos, competindo diretamente com a adaptação live-action de Moana. O apetite do público por experiências viscerais parece insaciável, e a franquia Evil Dead capitaliza esse desejo com uma consistência rara: segundo o agregador Rotten Tomatoes, todos os seis filmes da série mantêm uma classificação “fresca” acima dos 60%, um feito inédito entre as grandes sagas do género.
O que distingue esta nova vaga, porém, é a forma como o terror se tornou um espaço de resistência industrial. Enquanto blockbusters de 250 milhões de dólares lutam para recuperar o investimento, produções contidas como Evil Dead Burn multiplicam receitas e alimentam um ecossistema de plataformas de streaming. A estratégia da Warner Bros. prevê que o filme chegue ao aluguer digital cinco semanas após a estreia e à HBO Max em setembro, um calendário que reflete a confiança do estúdio na longevidade do título. Em mercados como o Brasil e Portugal, onde o terror tem uma base fiel mas ainda carece de produção local em escala, a expectativa recai sobre a disponibilização nas plataformas.
No final, a imagem que perdura não é a do fogo que consome a casa, mas a da avó mutilada a arrastar-se pelo alcatrão, pronta a arrancar as pernas de quem a socorrer. É um retrato fiel de uma franquia que, ao abandonar a ironia dos primeiros filmes, encontrou na crueldade explícita uma nova forma de vitalidade — e um recorde de frescura que nenhum slasher conseguiu igualar.
| Imprensa latino-americana | +1.00 | aligned |
|---|---|---|
| Imprensa atlântica / anglosfera | 0.00 | neutral |
O filme é um triunfo, um retorno às raízes que satisfaz os fãs com sangue e terror.
Usa linguagem hiperbólica e apelos emocionais para criar expectativa e engajamento, sem oferecer análise crítica.
Não menciona críticas negativas ou críticas sobre falta de originalidade, presentes na cobertura atlântica.
O filme é uma mistura: por um lado um sucesso de bilheteria, por outro uma obra em declínio que não corresponde ao original.
Apresenta pontos de vista contrastantes para dar uma impressão de objetividade, mas a crítica negativa é mais incisiva.
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