
BMW surpreende com alerta de lucros e ações caem para mínimos de 2020
A fabricante alemã reviu em baixa as previsões financeiras para 2026, citando a fragilidade do mercado chinês e os efeitos da guerra no Irão, num sinal de alarme para o setor automóvel europeu.
A apenas quatro semanas de assumir o comando da BMW, o novo presidente-executivo, Milan Nedeljković, desferiu um golpe na narrativa de resiliência que o seu antecessor cultivara durante anos. Na noite de terça-feira, o grupo de Munique emitiu um alerta de lucros que surpreendeu analistas e fez as ações desabarem cerca de 7%, para níveis que não se viam desde novembro de 2020. A projeção de margem operacional no negócio automóvel foi reduzida de um intervalo de 4% a 6% para apenas 1% a 3%, e a queda do resultado antes de impostos passou a ser classificada como “significativa”, e não mais “moderada”. O otimismo que Oliver Zipse exibira na assembleia geral de maio — “a confiança é uma decisão ativa”, dissera então — dissolveu-se em poucas semanas.
A revisão em baixa expõe a vulnerabilidade das marcas premium alemãs a duas forças que escapam ao seu controlo. Na China, o maior mercado automóvel do mundo, a procura continua a enfraquecer, pressionada pela concorrência dos fabricantes locais e por um consumidor mais cauteloso. A guerra no Irão, por sua vez, mantém os preços da energia elevados e deprime o ânimo dos compradores em várias regiões. A BMW admitiu que a dinâmica positiva de vendas na Europa e nos Estados Unidos não chega para compensar a quebra na Ásia-Pacífico. Observadores em Frankfurt notam que a magnitude do corte surpreendeu até os analistas mais céticos, que agora anteveem possíveis reduções de capacidade produtiva na Europa.
O abalo propagou-se rapidamente pelas praças financeiras. Em Estocolmo, as ações da Volvo Cars recuaram 3,7%, arrastadas pelo efeito de contágio do alerta da concorrente alemã. A crise que durante meses parecia contornar a BMW — tida como um “aluno exemplar” por manter uma estratégia dual de motores de combustão e elétricos — finalmente alcançou a empresa. A imprensa económica alemã fala num “sinal de alarme” para toda a indústria automóvel europeia, que já enfrenta pressões tarifárias e uma transição tecnológica dispendiosa. Na perspetiva de Pequim, a derrocada do mercado chinês deixou de ser um risco calculável para se tornar uma ameaça existencial às cadeias de valor globais.
O novo rumo em Munique inclui um plano de austeridade ainda por detalhar. A BMW junta-se assim a outras fabricantes que já recorreram a cortes de custos para proteger a rentabilidade. Para os mercados lusófonos, onde a marca tem presença industrial e comercial relevante — do Brasil a Portugal —, o episódio serve de lembrete de que a desaceleração chinesa e a instabilidade geopolítica no Médio Oriente não são crises distantes, mas fatores que reconfiguram as prioridades de toda a cadeia automóvel global. A questão que fica é se o realismo forçado de Nedeljković conseguirá devolver à BMW a agilidade que a festa dos anos Zipse prometia, mas já não podia garantir.
Como a mesma história é contada em outros lugares.
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A ilusão de imunidade que a BMW cultivou por tanto tempo diante da crise automotiva se estilhaçou. O novo CEO, com poucas semanas no cargo, cortou as projeções de lucro, expondo a arrogância da gestão anterior. A festa acabou em Munique, com a desaceleração chinesa e os choques geopolíticos finalmente atingindo a montadora.
A gigante alemã que abandonou o mercado russo agora vê suas ações desabarem para mínimas de vários anos. A BMW culpa a China e a guerra com o Irã, mas a narrativa carrega um tom de vindicação por sua saída de Moscou. A outrora orgulhosa montadora bávara é forçada a encarar uma realidade amarga.
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