
Barcos de dragão trocam a água pelo asfalto e o molho picante de Belize
De Taiwan a Pequim, o festival milenar adapta-se: corridas em ruas históricas, zongzi com café da Guatemala e ovos equilibrados ao meio-dia.
Na rua histórica de Sanxia, em Taiwan, o som dos tambores não ecoava sobre a água, mas sobre o asfalto. Dezassete equipas competiam numa corrida de barcos-dragão insufláveis, feitos de materiais reciclados, ao longo de 260 metros de uma via ladeada por edifícios da era colonial japonesa. A cada paragem obrigatória, os remadores devoravam uma sequência de iguarias locais: gelado de taro, pudim de tofu, bolo de sangue de porco e o croissant dourado típico da região. A equipa da Escola Primária Chajiao, com apenas três membros, completou o percurso em 4 minutos e 8 segundos, conquistando a prova. Noutra competição paralela, barcos-dragão artesanais, decorados com palhinhas, pratos e tampas de garrafa recolhidas em centros de reciclagem, desfilaram pela criatividade ecológica. O evento, organizado pela associação comercial local, procura reavivar uma tradição centenária que desapareceu quando o rio Sanxia assoreou e se tornou demasiado raso para as embarcações.
Enquanto isso, em Hong Kong, o festival decorreu sob um sol improvável. Menos de 24 horas depois de a cidade ter emitido dois alertas máximos de tempestade negra, milhares de pessoas encheram as praias e frentes marítimas de Stanley, Aberdeen, Tai Po e Sai Kung. Em Stanley, 185 equipas e cerca de 4.000 atletas participaram nas regatas. Naomi Watanabe, uma professora de inglês de 25 anos que remou pelo Clube Japonês do Barco-Dragão de Hong Kong, confessou que temera o cancelamento, mas o bom tempo permitiu que a energia se mantivesse. Alguns participantes usaram disfarces, incluindo uma versão cartoon da divindade taoista Ne Zha. Em Pequim, as provas no Grande Canal, com distâncias de 100, 200 e 500 metros, atraíram equipas de várias províncias e prolongam-se até 21 de junho. Li Maoshan, um dos remadores, afirmou que a competição reforçou o espírito de equipa e deu oportunidade de demonstrar perseverança.
O Festival do Barco-Dragão, ou Duanwu, celebrado no quinto dia do quinto mês lunar, entrelaça camadas de significado. A narrativa mais difundida associa-o ao poeta Qu Yuan, que se afogou há mais de dois milénios e cujo corpo a população tentou proteger dos peixes atirando arroz ao rio — origem simbólica dos zongzi, os bolinhos triangulares de arroz glutinoso recheados com carne de porco ou frutos secos. Em Taiwan, o ministro dos Negócios Estrangeiros, Lin Chia-lung, propôs uma combinação inusitada: zongzi com molho picante de Belize, um aliado diplomático, e café frio da Guatemala. “A primeira dentada é o sabor familiar do festival; a segunda traz os sabores apaixonados do nosso aliado”, disse num vídeo nas redes sociais. A tradição inclui ainda a confeção de saquinhos aromáticos para repelir insetos e a crença de que equilibrar um ovo na vertical ao meio-dia, na chamada “hora Wu”, absorve a energia positiva do cosmos e garante sorte durante o ano.
Observadores em Taiwan notam que a adaptação do festival a formatos terrestres e a incorporação de elementos diplomáticos e ecológicos refletem uma vitalidade cultural que transcende as fronteiras geográficas. Em Macau, território de herança lusófona, as regatas de barcos-dragão também mobilizam comunidades, ecoando uma prática que se expandiu para cidades como Lisboa e São Paulo, onde as diásporas chinesas organizam competições anuais. O festival, que segundo o historiador Liu Xiaofeng, da Universidade de Tsinghua, é “provavelmente o mais rico e diverso de todos os festivais tradicionais chineses”, continua a reinventar-se sem perder o lastro dos seus ritos. No final do dia, em Sanxia, o barco vencedor do concurso de design, construído com resíduos domésticos, permaneceu exposto na rua antiga — um dragão de escamas recicladas a lembrar que a tradição também se molda com o que o presente descarta.
Como a mesma história é contada em outros lugares.
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O Festival do Barco-Dragão é retratado como uma tradição antiga e vibrante que mistura diversão e herança cultural. As famílias se reúnem para saborear zongzi e assistir às corridas, com a história de mais de 2000 anos ressaltando a ligação entre a China moderna e suas raízes. A cobertura mantém um tom informativo e neutro, sem julgamento explícito.
Apesar das fortes chuvas recentes e dos alertas negros em Hong Kong, o Festival do Barco-Dragão ocorreu com multidões entusiasmadas e alto astral. O foco está na resiliência da comunidade e na atmosfera animada, contrastando o mau tempo anterior com o dia ensolarado do festival. A narrativa permanece factual, mas otimista.
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