
AIE prevê excedente de petróleo em 2027 após reabertura de Ormuz, mas alerta para riscos
Agência Internacional de Energia revê em baixa a procura para 2026 e antecipa forte superávit em 2027, mas recuperação será gradual e reservas estratégicas estão em mínimos de três décadas.
O anúncio de um acordo preliminar entre Estados Unidos e Irão para pôr fim à guerra no Médio Oriente e reabrir o estreito de Ormuz — com assinatura prevista para esta sexta-feira na Suíça — trouxe um alívio imediato aos mercados. O petróleo Brent caiu para abaixo dos 80 dólares pela primeira vez desde o início de março, enquanto o S&P 500 recuperou 3,3% face aos mínimos recentes. Contudo, o relatório mensal da Agência Internacional de Energia (AIE) divulgado esta quarta-feira mostra que os estragos provocados por quase quatro meses de bloqueio da principal artéria do comércio petrolífero mundial são profundos e não se desfarão rapidamente.
A AIE reviu em baixa a procura global de petróleo para 2026, estimando agora uma queda de 1,1 milhões de barris por dia face ao ano anterior — uma redução quase três vezes superior à projetada em maio. Do lado da oferta, a agência calcula um recuo de 3,9 milhões de barris diários, para 102,4 milhões, o que mantém um ligeiro défice estrutural de cerca de 920 mil barris por dia este ano. As entregas no segundo trimestre desabaram 5 milhões de barris diários, a primeira contração trimestral desde 2020, enquanto as reservas governamentais dos países consumidores atingiram o nível mais baixo desde 1990. Em Brasília, a revisão acendeu alertas sobre a pressão nos preços dos combustíveis e o impacto nas contas da Petrobras; em Lisboa, analistas sublinham a vulnerabilidade energética europeia num contexto de stocks estratégicos depauperados.
O grande ponto de viragem surge nas primeiras projeções da AIE para 2027. Se o cessar-fogo se mantiver e as sanções ao Irão forem levantadas, a oferta mundial poderá disparar 8 milhões de barris por dia, atingindo 110 milhões, enquanto a procura crescerá apenas 2 milhões. O resultado seria um excedente superior a 5 milhões de barris diários, transformando a escassez que marcou 2026 numa abundância potencialmente desestabilizadora para os produtores. Observadores no Médio Oriente advertem, porém, que a normalização dos fluxos em Ormuz levará tempo e que o acordo não elimina os riscos geopolíticos de fundo.
Para as economias lusófonas, o cenário é ambivalente. Angola e Moçambique, dependentes das receitas do crude, enfrentam a perspetiva de um mercado inundado de oferta e preços em queda a médio prazo, o que reforça a urgência de diversificação económica. O Brasil, grande importador de derivados, pode beneficiar de um alívio nos custos, mas continuará exposto à volatilidade enquanto a recuperação for gradual. A AIE frisa que, apesar do otimismo momentâneo, o choque de oferta foi o mais profundo em décadas e a fragilidade das reservas estratégicas mantém o sistema energético global sob tensão. O mundo acompanha agora a assinatura do acordo, ciente de que a travessia da crise para a normalidade será tudo menos linear.
Como a mesma história é contada em outros lugares.
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A AIE reduziu drasticamente sua previsão de demanda global de petróleo para 2026, projetando queda de 1,1 milhão de barris por dia, mas melhorou ligeiramente as perspectivas de oferta para 102,4 milhões de barris por dia. As receitas russas de exportação de petróleo caíram US$ 0,7 bilhão em maio, mas permaneceram mais de US$ 8 bilhões acima do ano anterior. Uma leitura pragmática que equilibra sinais negativos e positivos sem alarme.
A AIE espera uma recuperação gradual dos suprimentos de petróleo após a guerra, com o mercado caminhando para um grande superávit em 2027 à medida que o crescimento da produção supera a demanda. O acordo entre EUA e Irã para encerrar o conflito de três meses e reabrir o Estreito de Ormuz deve permitir o retorno gradual das exportações e da produção do Golfo se a trégua se mantiver. Uma visão cautelosamente otimista focada na estabilização.
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