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Esportesexta-feira, 19 de junho de 2026

Adeptos africanos viram costas à seleção sul-africana no Mundial após vaga de xenofobia

Protestos anti-imigrantes, ameaças online e repatriações forçadas transformaram os Bafana Bafana em alvo de torcida adversária em todo o continente.

O empate a uma bola entre a África do Sul e a República Checa, na quinta-feira, foi festejado em bares de Nairobi como se de uma vitória checa se tratasse. “Tudo no futebol é política. E somos contra aquilo que a África do Sul defende”, explicou a queniana Shahim, de 37 anos, cerrando os punhos a cada erro sul-africano. A cena repetiu-se desde o jogo inaugural, quando o México derrotou os Bafana Bafana por 2-0 e um mapa do continente coberto com a bandeira mexicana — exceto a África do Sul — viralizou nas redes. Influenciadores ganenses como Eric Boateng e Wode Maya ironizaram o súbito “afromexicanismo” continental, enquanto um membro da Confederação Africana de Futebol chegou a escrever que não se pode “maltratar a África e esperar uma bênção mundial”, antes de recuar e pedir que todos “vestissem a camisola” sul-africana.

A animosidade não nasceu nos relvados. Há meses, a África do Sul é palco de manifestações que exigem a saída de imigrantes irregulares, acompanhadas por uma campanha tóxica nas redes sociais. Analistas sul-africanos descrevem um ecossistema de desinformação que transforma incidentes isolados em narrativas que culpam estrangeiros pelo crime e pelo desemprego. Vídeos falsos, muitos desmentidos por verificadores de factos, e comunicados gerados por inteligência artificial com o brasão nacional alimentaram a ideia de um ultimato para 30 de junho, sem qualquer respaldo legal. A ministra das Obras Públicas, Dean Macpherson, alertou para grupos que “acendem o fósforo numa situação muito volátil e depois se afastam quando o fogo deflagra”. O TikTok baniu a conta de uma das líderes mais vocais, Jacinta Ngobese-Zuma, mas outras permanecem ativas.

A pressão extravasou para o terreno. O presidente Cyril Ramaphosa prometeu endurecer a luta contra a imigração irregular e, numa só semana, 2.745 estrangeiros foram repatriados. Centenas de moçambicanos regressaram a Maputo após a violência em Mossel Bay, que as autoridades moçambicanas dizem ter causado cinco mortos. Nigerianos, ganenses e malauianos também abandonaram o país. A Associação de Cidadãos Nigerianos na África do Sul denunciou que centenas de famílias estão retidas sem abrigo ou alimentos, à espera de voos de repatriação que o governo nigeriano prometeu mas tarda em disponibilizar — apenas um dos cinco aviões fretados partiu até agora. No plano desportivo, a Federação Sul-Africana de Futebol condenou o “assédio online” e as “mensagens ofensivas” dirigidas aos jogadores. O guarda-redes e capitão Ronwen Williams confessou o incómodo: “Queremos concentrar-nos no futebol, mas acabam por nos envolver na política, um lugar onde realmente não queremos estar.”

A crise expôs também as barreiras que os adeptos africanos enfrentam para chegar ao Mundial. As restrições de vistos impostas pelos Estados Unidos em 2025 abrangem 26 países africanos, incluindo Senegal e Costa do Marfim, ambos qualificados para o torneio. “Os Estados Unidos foram claros: não querem ver os nossos adeptos”, resumiu o presidente da organização de torcedores marfinenses. O capitão senegalês Kalidou Koulibaly lamentou que só as seleções africanas não possam ter os seus apoiantes nas bancadas. A mãe do guarda-redes cabo-verdiano Vozinha só recebeu o visto depois de a imprensa noticiar que a família não o pedira devido ao custo elevado das cauções, entretanto suspensas já tarde demais para a maioria.

Na perspetiva de observadores em Lisboa e em Brasília, a vaga de hostilidade recorda como o desporto amplifica tensões sociais que os governos tendem a minimizar. Investigações do Institute for Security Studies mostram que a perceção de que imigrantes agravam o desemprego e a criminalidade contrasta com a evidência de que cada trabalhador estrangeiro gera cerca de dois empregos para cidadãos. Contudo, inquéritos recentes revelam que 85% dos sul-africanos veem o impacto económico dos imigrantes como negativo, e apenas 15% acolheriam todos os estrangeiros. Com um ponto no grupo, os Bafana Bafana preparam o próximo encontro sabendo que, dentro e fora de campo, o isolamento continental se tornou um adversário inesperado.

Como a mesma história é contada em outros lugares.

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A violência xenófoba na África do Sul desencadeou uma reação continental: os torcedores africanos agora torcem contra os Bafana Bafana. Ameaças online, prazos para migrantes e evacuações forçadas transformaram a Copa do Mundo em palco de protesto. A hostilidade anti-estrangeiros, enraizada desde 2008, está custando à seleção o apoio do resto da África.

Imprensa latino-americana
SchadenfreudePragmatismo

Após a violência xenófoba, os torcedores africanos viram as costas à África do Sul e torcem pelos seus adversários na Copa do Mundo. Em um bar esportivo de Nairóbi, uma torcedora comemora cada erro dos Bafana Bafana, convicta de que futebol é política e é preciso dar uma lição. A partida vira uma chance de punir simbolicamente um país acusado de rejeitar seus próprios irmãos africanos.

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sexta-feira, 19 de junho de 2026

Adeptos africanos viram costas à seleção sul-africana no Mundial após vaga de xenofobia

Protestos anti-imigrantes, ameaças online e repatriações forçadas transformaram os Bafana Bafana em alvo de torcida adversária em todo o continente.

O empate a uma bola entre a África do Sul e a República Checa, na quinta-feira, foi festejado em bares de Nairobi como se de uma vitória checa se tratasse. “Tudo no futebol é política. E somos contra aquilo que a África do Sul defende”, explicou a queniana Shahim, de 37 anos, cerrando os punhos a cada erro sul-africano. A cena repetiu-se desde o jogo inaugural, quando o México derrotou os Bafana Bafana por 2-0 e um mapa do continente coberto com a bandeira mexicana — exceto a África do Sul — viralizou nas redes. Influenciadores ganenses como Eric Boateng e Wode Maya ironizaram o súbito “afromexicanismo” continental, enquanto um membro da Confederação Africana de Futebol chegou a escrever que não se pode “maltratar a África e esperar uma bênção mundial”, antes de recuar e pedir que todos “vestissem a camisola” sul-africana.

A animosidade não nasceu nos relvados. Há meses, a África do Sul é palco de manifestações que exigem a saída de imigrantes irregulares, acompanhadas por uma campanha tóxica nas redes sociais. Analistas sul-africanos descrevem um ecossistema de desinformação que transforma incidentes isolados em narrativas que culpam estrangeiros pelo crime e pelo desemprego. Vídeos falsos, muitos desmentidos por verificadores de factos, e comunicados gerados por inteligência artificial com o brasão nacional alimentaram a ideia de um ultimato para 30 de junho, sem qualquer respaldo legal. A ministra das Obras Públicas, Dean Macpherson, alertou para grupos que “acendem o fósforo numa situação muito volátil e depois se afastam quando o fogo deflagra”. O TikTok baniu a conta de uma das líderes mais vocais, Jacinta Ngobese-Zuma, mas outras permanecem ativas.

A pressão extravasou para o terreno. O presidente Cyril Ramaphosa prometeu endurecer a luta contra a imigração irregular e, numa só semana, 2.745 estrangeiros foram repatriados. Centenas de moçambicanos regressaram a Maputo após a violência em Mossel Bay, que as autoridades moçambicanas dizem ter causado cinco mortos. Nigerianos, ganenses e malauianos também abandonaram o país. A Associação de Cidadãos Nigerianos na África do Sul denunciou que centenas de famílias estão retidas sem abrigo ou alimentos, à espera de voos de repatriação que o governo nigeriano prometeu mas tarda em disponibilizar — apenas um dos cinco aviões fretados partiu até agora. No plano desportivo, a Federação Sul-Africana de Futebol condenou o “assédio online” e as “mensagens ofensivas” dirigidas aos jogadores. O guarda-redes e capitão Ronwen Williams confessou o incómodo: “Queremos concentrar-nos no futebol, mas acabam por nos envolver na política, um lugar onde realmente não queremos estar.”

A crise expôs também as barreiras que os adeptos africanos enfrentam para chegar ao Mundial. As restrições de vistos impostas pelos Estados Unidos em 2025 abrangem 26 países africanos, incluindo Senegal e Costa do Marfim, ambos qualificados para o torneio. “Os Estados Unidos foram claros: não querem ver os nossos adeptos”, resumiu o presidente da organização de torcedores marfinenses. O capitão senegalês Kalidou Koulibaly lamentou que só as seleções africanas não possam ter os seus apoiantes nas bancadas. A mãe do guarda-redes cabo-verdiano Vozinha só recebeu o visto depois de a imprensa noticiar que a família não o pedira devido ao custo elevado das cauções, entretanto suspensas já tarde demais para a maioria.

Na perspetiva de observadores em Lisboa e em Brasília, a vaga de hostilidade recorda como o desporto amplifica tensões sociais que os governos tendem a minimizar. Investigações do Institute for Security Studies mostram que a perceção de que imigrantes agravam o desemprego e a criminalidade contrasta com a evidência de que cada trabalhador estrangeiro gera cerca de dois empregos para cidadãos. Contudo, inquéritos recentes revelam que 85% dos sul-africanos veem o impacto económico dos imigrantes como negativo, e apenas 15% acolheriam todos os estrangeiros. Com um ponto no grupo, os Bafana Bafana preparam o próximo encontro sabendo que, dentro e fora de campo, o isolamento continental se tornou um adversário inesperado.

Divergência das fontes

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Quanto as fontes relatam os mesmos fatos de maneira diferente.

Como se dividem

Neutro14%
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Como a mesma história é contada em outros lugares.

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A violência xenófoba na África do Sul desencadeou uma reação continental: os torcedores africanos agora torcem contra os Bafana Bafana. Ameaças online, prazos para migrantes e evacuações forçadas transformaram a Copa do Mundo em palco de protesto. A hostilidade anti-estrangeiros, enraizada desde 2008, está custando à seleção o apoio do resto da África.

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SchadenfreudePragmatismo

Após a violência xenófoba, os torcedores africanos viram as costas à África do Sul e torcem pelos seus adversários na Copa do Mundo. Em um bar esportivo de Nairóbi, uma torcedora comemora cada erro dos Bafana Bafana, convicta de que futebol é política e é preciso dar uma lição. A partida vira uma chance de punir simbolicamente um país acusado de rejeitar seus próprios irmãos africanos.

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