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Mídia e Entretenimentosexta-feira, 24 de julho de 2026

Na poltrona que estremece, o eco de Homero: a Odisseia de Nolan entre o mito e a guerrilha cultural

Enquanto espectadores em Jerusalém sacudiam em poltronas 4D ao som da ira de Poseidon, o épico reabriu o debate sobre a precisão histórica e a representação num poema que é, ele próprio, pura ficção.

Numa sala escura de Jerusalém, as poltronas 4D disparavam solavancos sincronizados com a tempestade que o deus do mar lançava contra Ulisses. O nervosismo mecânico das cadeiras era uma tentativa literal de fazer o público sentir o que o herói sentira — um artifício que, para um crítico veterano presente, não acrescentava nada a um filme que, por si só, já «prendia» [A10]. A milhares de quilómetros dali, na Cidade do México, um grupo de adolescentes esforçava-se por compreender não a história do regresso a casa, mas «tudo o que ela representa» [A5]. As duas imagens revelam o mesmo desafio: como tornar tangível, para plateias do século XXI, um poema que tem quase três mil anos.

A versão de Christopher Nolan, que em poucos dias ultrapassou os 320 milhões de dólares de bilheteira mundial e bateu recordes na Índia ao cruzar a barreira dos mil milhões de rupias, fez mais do que adaptar Homero — reacendeu uma guerra cultural. Elon Musk, que há meses criticava a escolha de atores negros e trans para o elenco, prometeu «uma versão historicamente precisa» do poema, produzida inteiramente pela sua inteligência artificial Grok Imagine [A1, A14, A16]. A bravata, que incluiu a oferta de 100 milhões de dólares a Mel Gibson para uma adaptação com «armaduras, armas e um elenco minuciosamente fiel à história» e diálogos «em grego homérico», obteve resposta imediata: Colman Domingo, um dos protagonistas do filme, ironizou no programa de Jimmy Kimmel que «historicamente preciso» seria «mais branco do que o Natal no Cracker Barrel» e lembrou que «não se pode fazer uma versão historicamente precisa de algo que é totalmente inventado» [A1].

O desvario da «precisão histórica» num relato que mistura deuses, ciclopes e feiticeiras não é novo, mas ganhou um colorido particular. Observadores no Brasil sublinharam que a celeuma em torno do elenco multiétnico «é uma bobagem sem tamanho» e que a escolha até sublinha o «caráter universal» da obra [A12]. Em Itália, o jornal Domani recordou uma lição de Goethe: «A Ilíada, assim como a Odisseia e toda a verdadeira poesia, vivem e respiram apenas nos anacronismos» [A4]. Nos Estados Unidos, a discussão foi mais áspera: vozes da direita política trataram a presença de atores negros como uma agressão ao «património exclusivo dos brancos», enquanto a revista The Atlantic identificava no enredo do próprio filme — que castiga a violação das leis divinas e a cobiça desmedida — uma crítica conservadora ao radicalismo trumpista [A11].

O eco do épico, porém, não se limitou às trincheiras da opinião. A plataforma Spotify registou, no dia de estreia, um aumento superior a 500% nas audições do audiolivro da Odisseia em relação à média diária do mês anterior, com 91 edições em dez línguas e um tempo total de escuta equivalente a mais de 43 anos de reprodução contínua [A9]. Entre os espectadores, a urgência de rever o poema misturava-se com o fascínio pelo espetáculo: em Los Angeles e Nova Iorque, membros da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas saíam das projeções comentando o «elenco de estrelas» e a interpretação de Matt Damon, que «merecia um Óscar» [A15]. Já em Israel, um colunista propunha uma leitura pessoal: a Odisseia é, antes de tudo, uma história de regresso a casa, um eco dos sobreviventes do Holocausto que, como Ulisses, «enfrentaram a calamidade, a sobrevivência e a vitória» [A10].

Ao lado do crítico anónimo na sala mexicana, os adolescentes continuavam a decifrar «tudo o que representa» a viagem de Ulisses. Talvez aí resida a força do poema: não na precisão de uma armadura micénica, mas na cicatriz que a velha ama Euricleia reconhece no pé do rei, e que pactua com o silêncio para não apressar o destino [A5]. Enquanto as poltronas 4D faziam tremer os corpos em Jerusalém, o que verdadeiramente tremia era a certeza de que um mito de três milénios, sempre que recontado, regressa a casa com um rosto diferente.

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Na poltrona que estremece, o eco de Homero: a Odisseia de Nolan entre o mito e a guerrilha cultural

Enquanto espectadores em Jerusalém sacudiam em poltronas 4D ao som da ira de Poseidon, o épico reabriu o debate sobre a precisão histórica e a representação num poema que é, ele próprio, pura ficção.

Numa sala escura de Jerusalém, as poltronas 4D disparavam solavancos sincronizados com a tempestade que o deus do mar lançava contra Ulisses. O nervosismo mecânico das cadeiras era uma tentativa literal de fazer o público sentir o que o herói sentira — um artifício que, para um crítico veterano presente, não acrescentava nada a um filme que, por si só, já «prendia» [A10]. A milhares de quilómetros dali, na Cidade do México, um grupo de adolescentes esforçava-se por compreender não a história do regresso a casa, mas «tudo o que ela representa» [A5]. As duas imagens revelam o mesmo desafio: como tornar tangível, para plateias do século XXI, um poema que tem quase três mil anos.

A versão de Christopher Nolan, que em poucos dias ultrapassou os 320 milhões de dólares de bilheteira mundial e bateu recordes na Índia ao cruzar a barreira dos mil milhões de rupias, fez mais do que adaptar Homero — reacendeu uma guerra cultural. Elon Musk, que há meses criticava a escolha de atores negros e trans para o elenco, prometeu «uma versão historicamente precisa» do poema, produzida inteiramente pela sua inteligência artificial Grok Imagine [A1, A14, A16]. A bravata, que incluiu a oferta de 100 milhões de dólares a Mel Gibson para uma adaptação com «armaduras, armas e um elenco minuciosamente fiel à história» e diálogos «em grego homérico», obteve resposta imediata: Colman Domingo, um dos protagonistas do filme, ironizou no programa de Jimmy Kimmel que «historicamente preciso» seria «mais branco do que o Natal no Cracker Barrel» e lembrou que «não se pode fazer uma versão historicamente precisa de algo que é totalmente inventado» [A1].

O desvario da «precisão histórica» num relato que mistura deuses, ciclopes e feiticeiras não é novo, mas ganhou um colorido particular. Observadores no Brasil sublinharam que a celeuma em torno do elenco multiétnico «é uma bobagem sem tamanho» e que a escolha até sublinha o «caráter universal» da obra [A12]. Em Itália, o jornal Domani recordou uma lição de Goethe: «A Ilíada, assim como a Odisseia e toda a verdadeira poesia, vivem e respiram apenas nos anacronismos» [A4]. Nos Estados Unidos, a discussão foi mais áspera: vozes da direita política trataram a presença de atores negros como uma agressão ao «património exclusivo dos brancos», enquanto a revista The Atlantic identificava no enredo do próprio filme — que castiga a violação das leis divinas e a cobiça desmedida — uma crítica conservadora ao radicalismo trumpista [A11].

O eco do épico, porém, não se limitou às trincheiras da opinião. A plataforma Spotify registou, no dia de estreia, um aumento superior a 500% nas audições do audiolivro da Odisseia em relação à média diária do mês anterior, com 91 edições em dez línguas e um tempo total de escuta equivalente a mais de 43 anos de reprodução contínua [A9]. Entre os espectadores, a urgência de rever o poema misturava-se com o fascínio pelo espetáculo: em Los Angeles e Nova Iorque, membros da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas saíam das projeções comentando o «elenco de estrelas» e a interpretação de Matt Damon, que «merecia um Óscar» [A15]. Já em Israel, um colunista propunha uma leitura pessoal: a Odisseia é, antes de tudo, uma história de regresso a casa, um eco dos sobreviventes do Holocausto que, como Ulisses, «enfrentaram a calamidade, a sobrevivência e a vitória» [A10].

Ao lado do crítico anónimo na sala mexicana, os adolescentes continuavam a decifrar «tudo o que representa» a viagem de Ulisses. Talvez aí resida a força do poema: não na precisão de uma armadura micénica, mas na cicatriz que a velha ama Euricleia reconhece no pé do rei, e que pactua com o silêncio para não apressar o destino [A5]. Enquanto as poltronas 4D faziam tremer os corpos em Jerusalém, o que verdadeiramente tremia era a certeza de que um mito de três milénios, sempre que recontado, regressa a casa com um rosto diferente.

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