
Bruxelas estuda abandonar megapacotes de sanções contra Moscovo após veto grego
Diplomatas europeus admitem que o 21.º pacote pode ser o último neste formato, enquanto a Rússia anuncia contramedidas e a Noruega alinha novas restrições.
A Comissão Europeia e os Estados-membros mais ativos no apoio à Ucrânia discutem uma reforma do processo de adoção de sanções contra a Rússia, segundo fontes diplomáticas citadas pelo Financial Times. A proposta em análise prevê substituir os grandes pacotes temáticos por medidas individuais ou pequenos blocos setoriais, com o objetivo de reduzir a capacidade de veto de capitais que, como Atenas, procuram proteger interesses económicos específicos. O debate ganhou força depois de a Grécia ter bloqueado durante semanas o 21.º pacote, exigindo e obtendo uma exceção para a transportadora de GNL Dynagas — a primeira vez, nota o diário, que um Estado-membro consegue enfraquecer sanções económicas já negociadas.
Na perspetiva de Bruxelas, o atual mecanismo de unanimidade transformou cada ronda de restrições num exercício de equilíbrio político em que um único país pode travar dezenas de medidas. O 21.º pacote, aprovado em 23 de julho, ilustra essa dinâmica: incluiu 48 pessoas e 170 entidades, entre elas a Bolsa de Moscovo e 94 bancos, mas só foi destravado depois de se retirar a proibição total do transporte marítimo de gás natural liquefeito russo. Diplomatas europeus recordam que impasses semelhantes ocorreram em 2022, quando Hungria, Chipre, Malta e a própria Grécia condicionaram o teto ao preço do petróleo, e sublinham que a repetição de vetos está a corroer a eficácia da política de pressão económica.
A Rússia reagiu em duas frentes. A porta-voz do Ministério dos Negócios Estrangeiros, Maria Zakharova, classificou as novas medidas como “autodesmascaramento monstruoso” e anunciou que Moscovo divulgará em breve as suas contramedidas. Em Oslo, o embaixador russo Nikolai Korchunov confirmou que o Kremlin prepara uma resposta às sanções norueguesas, alinhadas com o 20.º pacote europeu. Observadores em Lisboa e Brasília notam que a fragmentação do consenso europeu pode abrir espaço para que países como o Brasil, que mantém relações comerciais com a Rússia e preside atualmente o G20, reforcem a defesa de mecanismos multilaterais que não dependam de sanções unilaterais.
A ideia de avançar para um “procedimento contínuo”, em que cada medida é adotada assim que fica pronta, ganha adeptos entre os Estados-membros mais pró-ucranianos, mas ainda não há proposta formal. O 21.º pacote pode, por isso, marcar o fim de uma era de pacotes concebidos para maximizar o impacto mediático em datas simbólicas. A próxima etapa será a discussão técnica na Comissão Europeia, que deverá apresentar opções aos chefes de diplomacia ainda antes do outono, enquanto a Rússia sinaliza que responderá com medidas equivalentes, prolongando a espiral de retaliação.
| Imprensa russa e CEI | −0.40 | critical |
|---|---|---|
| Imprensa atlântica / anglosfera | 0.00 | neutral |
| Imprensa europeia continental | 0.00 | neutral |
A União Europeia mostra as suas fissuras: o mecanismo de sanções está a emperrar devido aos vetos cruzados. O 21º pacote pode ser o último, sinal de que a UE já não consegue manter a coesão.
Ao enfatizar as divisões internas e o risco de fracasso, a narrativa russa apresenta a mudança de procedimento como uma fraqueza estrutural da UE, não como uma melhoria.
A narrativa russa omite que a UE continua empenhada em manter as sanções e que a nova abordagem visa torná-las mais eficazes, não reduzi-las.
A UE está a rever a sua abordagem para tornar as sanções mais eficientes após a exceção grega. O objetivo é evitar bloqueios e acelerar as decisões.
A narrativa atlântica normaliza a mudança como uma racionalização técnica, sem enfatizar as divisões políticas.
A narrativa atlântica omite que a exigência grega foi vista como uma concessão aos interesses nacionais, e que o novo processo poderia enfraquecer a pressão geral sobre a Rússia.
Os diplomatas europeus querem dificultar o bloqueio das sanções. Propõe-se um processo contínuo para evitar que um país bloqueie tudo por uma única medida.
A narrativa europeia continental apresenta a proposta como uma solução técnica e neutra, sem atribuir culpas ou enfatizar conflitos.
A narrativa europeia continental omite que a Grécia usou o veto para proteger os seus interesses económicos, e que a nova abordagem poderia reduzir a transparência das decisões.
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