
Ucrânia e Moldávia dão passo histórico rumo à UE após fim do veto húngaro
A abertura do primeiro cluster de negociações marca um avanço simbólico para Kiev e Chișinău, mas o caminho até a adesão plena exigirá anos de reformas profundas.
A União Europeia deu esta segunda-feira um passo decisivo no alargamento a leste ao abrir formalmente as negociações de adesão com a Ucrânia e a Moldávia, depois de meses de impasse provocado pelo veto da Hungria. A cerimónia no Luxemburgo, que arrancou com o primeiro bloco temático — os chamados “Fundamentos” —, foi possível graças ao acordo alcançado entre o novo primeiro-ministro húngaro, Péter Magyar, e o Presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky, sobre os direitos da minoria magiar na Ucrânia. O vice-primeiro-ministro ucraniano, Taras Kachka, classificou o momento como “um Rubicão, um marco decisivo”, enquanto a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, sublinhou que o gesto reforça “a paz, a segurança e a prosperidade” no continente. A coincidência com um dos maiores ataques aéreos russos dos últimos meses — 611 drones e 70 mísseis lançados contra território ucraniano na madrugada anterior — ilustrou a brutalidade do contexto em que estas negociações decorrem.
O primeiro cluster, dedicado aos princípios fundadores do bloco, inclui capítulos sensíveis como o funcionamento das instituições democráticas, a reforma da administração pública, o controlo financeiro e, sobretudo, o respeito pelo Estado de direito e pelos direitos fundamentais. Kiev comprometeu-se a cumprir todos os critérios, incluindo os intermédios e finais, mas o percurso será longo. Observadores em Lisboa recordam que a própria Polónia, país vizinho e culturalmente próximo, precisou de sete anos apenas para concluir as negociações técnicas. A Moldávia, que durante anos combateu as tentativas de Moscovo de travar a sua viragem europeia, iniciou simultaneamente o mesmo processo, com Chișinău a receber elogios de Bruxelas pelos progressos alcançados.
Na perspetiva de Brasília, o alargamento da UE é acompanhado com interesse estratégico, ainda que o Brasil mantenha uma posição de neutralidade face ao conflito. A diplomacia brasileira vê na integração europeia um modelo de governação supranacional, mas também um fator de reconfiguração geopolítica que pode influenciar os equilíbrios no espaço pós-soviético. Para os países africanos de língua oficial portuguesa, o episódio serve de referência sobre os desafios da harmonização normativa com um bloco económico, embora as realidades sejam distintas. Já em Lisboa, o governo português tem sido um dos defensores consistentes do alargamento, considerando que a entrada da Ucrânia e da Moldávia ancorará a segurança na fronteira oriental da Europa.
Apesar do entusiasmo, o caminho está pejado de obstáculos. A Ucrânia terá de demonstrar, em plena guerra, que consegue alinhar o seu quadro jurídico e administrativo com o acervo comunitário, enquanto a Moldávia enfrenta a fragilidade económica e a pressão constante de Moscovo. O primeiro cluster, por regra, é o último a ser encerrado, o que significa que o escrutínio sobre as reformas mais profundas acompanhará todo o processo. A adesão à UE tornou-se, para Kiev, a principal fonte potencial de garantias de segurança, numa altura em que a via da NATO está bloqueada e as conversações de paz lideradas pelos EUA patinam. O gesto de segunda-feira é, assim, uma vitória política e moral, mas a concretização do sonho europeu continua a medir-se em anos, não em meses.
Como a mesma história é contada em outros lugares.
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Um dia histórico para a Ucrânia. Após o bloqueio da Hungria, as negociações formais finalmente começam. A Suécia pressiona para abrir rapidamente todos os clusters, vendo a adesão como essencial para o futuro da Europa.
O início das conversações é um passo simbólico, mas ninguém sabe quando – ou se – a Ucrânia e a Moldávia realmente aderirão. O processo pode arrastar-se indefinidamente, exigindo reformas massivas e o alinhamento com todas as regras da UE.
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