
Rai em crise, novos realities e streaming: o panorama global da TV em transformação
Enquanto a emissora pública italiana enfrenta disputas internas e remodela a grelha, formatos inovadores ganham força na Suécia, no México e na Argentina.
A televisão pública italiana vive dias de turbulência que vão muito além da habitual dança de cadeiras nos ecrãs. A apresentação da grelha outono-inverno da Rai, prevista para esta semana, confirma a ascensão de Roberto Inciocchi ao prime time de quarta-feira na Rai2 com um novo programa informativo e a transferência de Salvo Sottile do ‘Far West’ para o comando do ‘Ore 14’, herdado de Milo Infante, que rumou à Mediaset. Contudo, os holofotes viraram-se para a guerra interna na administração: numa reunião tensa, o diretor-geral Roberto Sergio e o presidente em exercício Antonio Marano trocaram insultos que os jornais italianos classificaram como impróprios para constar em ata. O confronto, centrado no plano imobiliário e no documento de balanço, expõe fraturas profundas na Rai da era Meloni, com fações outrora aliadas a digladiarem-se enquanto a emissora tenta projetar estabilidade.
A escolha de Ancona como palco da apresentação oficial dos novos palinsesti, a 3 de julho, não foi casual. A cidade, Capital Italiana da Cultura em 2028, fica a poucos quilómetros da fronteira com San Marino, pequena república onde Roberto Sergio poderá assumir em breve a liderança da radiotelevisão pública local. A manobra é lida em Roma como uma saída estratégica para um diretor-geral cuja posição se fragilizou, mas também como um gesto de afirmação regional que ecoa a crescente descentralização dos media públicos europeus — um movimento com paralelos em Portugal, onde a RTP tem reforçado delegações fora de Lisboa, e no Brasil, com a EBC a ensaiar maior presença para além do eixo Rio-São Paulo.
Enquanto a Europa debate o futuro do serviço público, o entretenimento factual escandinavo aposta na profundidade psicológica. Na Suécia, o TV4 regressa com ‘Elitstyrkans hemligheter VIP’, reality de resistência física e mental que junta dezasseis celebridades, como a influencer Margaux Dietz e o ex-guarda-redes Magnus Hedman, sob a orientação de antigos soldados de elite. A novidade é a inclusão da psicóloga Ellinor, que acompanhará os participantes em tempo real, sinal de que o formato busca transcender o mero espetáculo do sofrimento. Do outro lado do Atlântico, no México, o fenómeno independente ‘La más Draga’ desafia o desdém comercial com o spin-off ‘Las Más 2’, transmitido exclusivamente no YouTube. Os episódios ultrapassam um milhão de visualizações em poucos dias, provando que a produção queer mexicana conquistou um público fiel sem necessidade dos canais tradicionais.
Na Argentina, o streaming também reescreve as regras. Com Nati Jota nos Estados Unidos a cobrir o Mundial de 2026, o canal Olga manteve no ar o matutino ‘Sería increíble’ recorrendo a uma série de apresentadores convidados. A presença de Juana Viale, figura histórica da televisão generalista, ao lado de criadores nativos digitais como Martín Cirio, ilustra a porosidade crescente entre a TV linear e as plataformas. Esta fluidez, observada de Brasília a Lisboa, indica que a próxima temporada televisiva será marcada menos por fronteiras tecnológicas e mais pela capacidade de cada projeto — público ou privado, linear ou digital — de construir comunidades em torno de conteúdos autênticos e culturalmente enraizados.
Como a mesma história é contada em outros lugares.
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As televisões públicas europeias estão em ebulição: a Rai italiana enfrenta conflitos internos e mudanças na grade, enquanto a Suécia experimenta novos formatos de reality. Um cenário de tensões e inovações que reflete a difícil transição do serviço público.
Na América Latina, formatos ousados desafiam o desdém comercial: um reality de drag queens quebra barreiras no México, enquanto um canal de streaming argentino aposta em apresentadores convidados para manter sua faixa matinal. A tela se reinventa com criatividade e resiliência.
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