
Pressão nos alimentos divide o mundo: Suécia alivia IVA, enquanto inflação castiga emergentes
Enquanto uma redução do IVA fez cair os preços na Suécia, países da América Latina e da Ásia enfrentam altas persistentes nos alimentos, agravadas por choques climáticos e cambiais.
O panorama global dos preços dos alimentos apresenta contrastes marcantes. Na Suécia, a redução do imposto sobre o valor acrescentado (IVA) de 12% para 6% nos bens alimentares, em vigor desde abril, provocou uma queda média de mais de 6% no cabaz de compras dos reformados, segundo dados da organização PRO. Laranjas, sumo de laranja, manteiga e lacticínios estão entre os produtos que mais baixaram, num movimento que os analistas escandinavos classificam como inédito. Contudo, esta trégua nos preços constitui uma exceção. Nas economias emergentes, a pressão sobre o custo dos alimentos persiste e, em vários casos, intensifica-se.
Na América Latina, os sinais são de aperto. Na Argentina, uma família tipo de quatro pessoas precisou de 1,49 milhões de pesos em maio para não cair abaixo da linha da pobreza, um aumento de 2% face a abril. A Colômbia regista uma inflação de alimentos de 5,8% no acumulado do ano, impulsionada pelos produtos perecíveis, cuja variação de 14,8% reflecte os estragos das chuvas seguidas de seca. A inflação subjacente colombiana, que exclui alimentos e preços regulados, voltou aos 5,98% em maio, o valor mais elevado desde junho de 2024, pressionando o banco central (Banrep) a ponderar a manutenção de taxas de juro elevadas.
Na Ásia, o cenário é igualmente preocupante. A Índia viu a inflação retalhista de maio acelerar para 3,93%, o nível mais alto em 15 meses, com a componente alimentar a subir de 4,20% para 4,78%. Os custos de transporte de mercadorias dispararam 7,63%, sinalizando um efeito de contágio dos combustíveis. No Irão, a situação é ainda mais dramática: o preço do óleo alimentar multiplicou-se por vinte nos últimos cinco anos, reflexo de uma dependência de importações superior a 90% e de dois choques cambiais consecutivos — a eliminação do dólar subsidiado em 2022 e uma decisão de política cambial mais recente. A inflação iraniana atinge máximos de meio século, com a taxa a duplicar nos últimos meses.
A divergência entre a experiência sueca e a realidade dos mercados emergentes expõe vulnerabilidades estruturais. Nos países dependentes de importações de matérias-primas e combustíveis, a transmissão das variações cambiais é rápida e amplificada. Já na Índia e na Colômbia, o aquecimento dos núcleos de inflação sugere que os choques setoriais estão a alastrar-se à economia mais ampla, colocando os bancos centrais numa encruzilhada. Para os países lusófonos, ainda que não figurem directamente nas análises, as lições são claras: a exposição a choques climáticos sobre a produção agrícola e a dependência de importações alimentares, como se observa em vários contextos africanos, podem replicar estas pressões. A redução do IVA na Suécia mostra que a política fiscal pode aliviar pontualmente o fardo, mas as causas profundas da inflação de alimentos — do clima à geopolítica — exigem respostas coordenadas que transcendem fronteiras.
Como a mesma história é contada em outros lugares.
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Na Suécia, os preços dos alimentos caíram sensivelmente após a redução do IVA sobre alimentos de 12% para 6% em abril. O cabaz dos reformados recuou, em média, mais de seis por cento num ano, embora as disparidades regionais de preços continuem grandes.
Na América Latina, a inflação dos alimentos está a acelerar, impulsionada por secas, chuvas intensas e problemas de oferta. Na Argentina, uma família de quatro pessoas precisou de quase 1,5 milhões de pesos em maio para se manter acima da linha da pobreza, enquanto na Colômbia a inflação subjacente voltou aos 6%, levantando dúvidas sobre a política de juros do banco central.
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