
Orçamentos recorde e crédito sob tensão: o dilema das economias emergentes
Bangladesh apresenta o maior orçamento da sua história, mas o aumento da despesa pública ameaça sufocar o setor privado, enquanto Argentina e Brasil enfrentam alta da inadimplência bancária.
O Bangladesh acaba de apresentar um orçamento histórico de 9,38 biliões de takas para o exercício de 2026-27, o maior de sempre, num contexto político invulgar: é a primeira proposta orçamental após uma revolta popular que pôs fim a um longo período autocrático. A oposição e a sociedade civil responderam com a publicação de orçamentos-sombra completos, um gesto que, na perspetiva de Daca, assinala uma aproximação ao modelo de escrutínio parlamentar de Westminster. Contudo, o entusiasmo democrático esbarra em alertas concretos do setor produtivo. A Bangladesh Chamber of Industries advertiu que, para financiar a expansão da despesa, o governo terá de absorver um volume de crédito bancário muito acima das metas, o que pode estrangular o financiamento às empresas privadas, comprometer a meta de crescimento de 6,5% do PIB e, perante uma provável quebra da receita fiscal, aumentar a pressão sobre os contribuintes já existentes.
A arquitetura do orçamento revela contradições flagrantes entre a ambição sanitária e a política fiscal aplicada ao tabaco. O executivo quase duplicou a dotação para a saúde, elevando-a para 69.409 crores de takas, eliminou o IVA sobre filtros de diálise, reduziu direitos aduaneiros sobre matérias-primas para medicamentos oncológicos e anunciou a contratação de cem mil profissionais de saúde, reconhecendo a prevenção das doenças não transmissíveis como prioridade nacional. Porém, a tributação do tabaco foi desenhada de forma a que o aumento do preço por maço beneficiasse sobretudo as empresas, e não a arrecadação ou a dissuasão do consumo. Analistas em Daca consideram que esta opção mina silenciosamente os alicerces da estratégia de saúde pública e representa uma decisão deliberada favorável à indústria tabaqueira, num país onde as doenças não transmissíveis já lideram as causas de morte.
O estrangulamento do crédito não é uma inquietação exclusiva do sul asiático. Na Argentina, a morosidade bancária voltou a acender alertas, com o aumento dos empréstimos em atraso — sobretudo no crédito pessoal e nos cartões — a refletir a fragilidade dos rendimentos familiares face à inflação dos gastos correntes. Muitas famílias recorreram ao financiamento para sustentar o consumo diário, mas o encarecimento do crédito e o aperto orçamental transformaram essa dependência em incumprimento. No Brasil, um inquérito da Confederação Nacional da Indústria revela que 45% das empresas industriais projetam aumentar o endividamento bancário nos próximos três meses, pressionadas pelo custo elevado do crédito e pela necessidade de financiar despesas operacionais e existências, num cenário que a CNI atribui aos efeitos da política monetária restritiva.
Olhando em conjunto para Daca, Buenos Aires e Brasília, desenha-se um dilema comum às economias emergentes: a combinação de orçamentos expansionistas, condições monetárias apertadas e uma base de crédito limitada gera um ciclo de tensão que pode travar o crescimento e agravar a desigualdade. O ensaio de orçamentos-sombra no Bangladesh representa um avanço na transparência democrática, mas a sua eficácia dependerá da capacidade de incorporar esses contributos num debate que não se esgote na retórica política. Em economias lusófonas como Moçambique e Angola, onde o endividamento público e a dependência do crédito bancário também suscitam debates análogos, o desafio é semelhante: conciliar a urgência das despesas sociais e de saúde com quadros de financiamento sustentáveis, sob pena de a expansão fiscal se converter em mais incumprimento e fragilidade financeira.
Como a mesma história é contada em outros lugares.
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Os reguladores estão forçando os fundos de crédito privado a atualizar as avaliações de ativos até o final de junho, alertando que os números atuais estão defasados em relação à realidade econômica. O setor está entrando em seu primeiro período de estresse significativo, com aumento de inadimplência e atrasos. O órgão de fiscalização corporativa colocou a indústria em alerta, exigindo premissas realistas.
Bancos e analistas estão alarmados com o aumento da inadimplência em empréstimos pessoais e cartões de crédito, refletindo a dificuldade das famílias em acompanhar as despesas com rendas estagnadas. No Brasil, quase metade das empresas industriais planeja aumentar o endividamento bancário em breve, apesar do crédito caro, para financiar capital de giro. O aperto da dívida custosa está se fechando sobre famílias e empresas.
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