
Inflação resistente na América Latina: Brasil revê IPCA para 5,30%, Argentina mede pobreza e Colômbia enfrenta núcleo rígido
Projeções brasileiras sobem pela 14.ª semana consecutiva e ultrapassam o teto da meta, enquanto Buenos Aires regista nova alta no custo da cesta básica e Bogotá observa a inflação subjacente regressar a níveis de 2024.
A persistência das pressões inflacionárias na América Latina ganhou novos contornos esta semana, com a divulgação de indicadores que mostram o encarecimento do custo de vida em três das maiores economias da região. Em Brasília, o relatório Focus do Banco Central revelou que a mediana das projeções para o IPCA de 2026 subiu pela 14.ª semana consecutiva, passando de 5,11% para 5,30%, distanciando-se ainda mais do teto da meta de 4,50%. Analistas em São Paulo também elevaram a estimativa para a taxa Selic no final deste ano para 13,75%, sinalizando que o ciclo de aperto monetário deverá prolongar-se para conter um processo inflacionário que já se reflete nas expectativas para 2027 e 2028, agora ajustadas para 4,10% e 3,68%, respetivamente.
Enquanto isso, em Buenos Aires, o Instituto Nacional de Estadística y Censos (INDEC) atualizou os valores das canastas básicas de maio de 2026, revelando que uma família tipo de quatro integrantes precisou de 1.498.741 pesos para não cair abaixo da linha da pobreza, um aumento de 2% face a abril. Embora a variação tenha ficado ligeiramente abaixo da inflação geral de 2,1%, o número absoluto ilustra a pressão constante sobre os rendimentos: um adulto solteiro necessitou de 485.030 pesos para evitar a pobreza e de 220.468 pesos para não ser considerado indigente. Os dados reforçam a dificuldade de recomposição do poder de compra num contexto em que a inflação, ainda que em desaceleração gradual, continua a corroer os orçamentos familiares.
Em Bogotá, o foco recaiu sobre a inflação básica, que exclui alimentos e preços regulados. O DANE reportou que o indicador atingiu 5,98% em maio, o nível mais elevado desde junho de 2024, superando inclusive a inflação total de 5,84%. A convergência entre os dois índices sugere que os fatores voláteis já não explicam sozinhos a alta de preços, e que pressões mais estruturais — como a indexação de serviços e o repasse cambial — ganham força. Observadores em Bogotá notam que este comportamento pressiona o Banco de la República a manter uma postura cautelosa nos ajustes das taxas de juro, num momento em que a economia colombiana ainda busca recuperar dinamismo.
A leitura conjunta dos três países revela um cenário de inflação mais resiliente do que o antecipado no início do ano. No Brasil, a piora das projeções coincide com os efeitos da guerra comercial e das tensões no Oriente Médio, que alimentam a volatilidade dos preços de commodities e do câmbio. A persistência de núcleos elevados na Colômbia e a necessidade de rendimentos cada vez maiores para escapar à pobreza na Argentina mostram que o combate à inflação continua a ser o principal desafio macroeconómico da região. Para as famílias, a mensagem é clara: o alívio prometido para 2026 ainda não se materializou, e os bancos centrais terão de calibrar com precisão os instrumentos de política monetária para evitar que a estabilização se transforme num processo mais longo e doloroso do que o previsto.
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