
Expansão de data centers força redes elétricas e fragiliza compromissos climáticos
O consumo de energia e água por centros de dados atinge novos picos no México e na Itália, enquanto a Meta abandona iniciativa de energia limpa e a Microsoft vê emissões subirem 25%.
O recorde de demanda elétrica no México, com pico de 54.300 megawatts na noite de 26 de junho, ilustra a pressão crescente que a multiplicação de centros de dados exerce sobre as redes de energia. Na Itália, os pedidos de ligação à rede de alta tensão somam 96 gigawatts — 160 vezes a potência instalada atual —, dos quais 88% provêm de projetos ligados a data centers, segundo a Terna. Embora muitos desses requerimentos sejam especulativos, o setor já responde por 19% do crescimento anual da potência instalada no país.
O apetite energético dessas infraestruturas é acompanhado por um consumo hídrico intenso. Um único centro de hiperescala pode utilizar 19 milhões de litros de água por dia, equivalente ao abastecimento de uma cidade de 50 mil habitantes. No estado mexicano de Querétaro, polo de data centers, comunidades relatam cortes de água e apagões mais frequentes. Globalmente, os data centers consomem entre 1,5% e 2% da eletricidade mundial, fatia que se projeta duplicar até 2030, de acordo com análises do setor.
Enquanto a demanda dispara, grandes empresas de tecnologia reveem os compromissos ambientais. A Meta abandonou a iniciativa RE100, que reúne companhias comprometidas com o uso de 100% de energia renovável, por já não conseguir cumprir os critérios devido a novos investimentos em centrais a gás natural. A Microsoft reportou um aumento de 25% nas emissões de gases de efeito estufa, para 20,3 milhões de toneladas de CO₂ equivalente, puxado pela expansão da nuvem e da inteligência artificial. Na União Europeia, onde normas são mais rígidas, o crescimento dos data centers na Irlanda — onde já absorvem quase um quarto da eletricidade nacional — acende debates sobre o impacto nas contas de luz e na segurança energética.
Na América Latina, Brasil, México e Chile concentram 5% dos data centers globais, mas carecem de marcos regulatórios robustos. Observadores em São Paulo apontam que a região necessita de regras que condicionem a instalação desses empreendimentos a contrapartidas ambientais e sociais, como o uso de energias renováveis e a gestão eficiente da água. O próximo passo será a evolução dos planos de reforço das redes e dos quadros legais — na Itália, Terna avalia como filtrar as solicitações especulativas; no Brasil, a Agência Nacional de Energia Elétrica acompanha a expansão da carga. O equilíbrio entre digitalização e sustentabilidade dependerá dessas respostas regulatórias.
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