
Espanha atrai quase um milhão de pedidos de regularização enquanto Europa debate eficácia de políticas anti-imigração
Procura recorde em Espanha contrasta com a ineficácia de medidas restritivas na Alemanha e na Suécia para conter a extrema-direita, revelando um novo xadrez político migratório.
O programa extraordinário de regularização de imigrantes indocumentados lançado pelo governo socialista de Pedro Sánchez já recebeu cerca de 900 mil pedidos, quase o dobro das estimativas iniciais, quando ainda faltam duas semanas para o fim do prazo. A medida, desenhada para integrar trabalhadores no mercado formal, atraiu uma procura muito superior à última grande regularização espanhola, em 2005, e consolida a imagem de uma Espanha de portas abertas num continente que tende a fechá-las. No entanto, observadores em Madrid e Roma sublinham o contraste: o país é o terceiro com menor taxa de concessão de asilo na União Europeia, tendo registado uma quebra de 13,7% nos pedidos de refúgio em 2025, o que leva críticos a falar numa "trufa" de acolhimento que privilegia a mão de obra em detrimento da proteção humanitária.
Na Alemanha, o paradoxo é inverso. Os números de chegadas irregulares caíram para mínimos de vários anos, mas o partido de extrema-direita AfD nunca esteve tão forte nas sondagens, tendo já ultrapassado a União Democrata-Cristã. A estratégia conservadora de que reduzir a imigração acalmaria o eleitorado revelou-se infrutífera, e o líder da CSU, Markus Söder, admitiu publicamente a dificuldade em conter a direita radical. Uma dinâmica semelhante desenha-se na Suécia, onde o governo de Ulf Kristersson, apoiado pelos nacionalistas dos Democratas Suecos, aplicou uma das políticas mais duras da Europa, mas vê o bloco de esquerda liderado pela social-democrata Magdalena Andersson disparar para 55,2% nas intenções de voto a três meses das legislativas. O executivo elevou o subsídio de repatriamento voluntário de 10 mil para 350 mil coroas por pessoa (até 600 mil por família), e os pedidos dispararam para 608 só este ano, embora alguns requerentes relatem vergonha por recorrerem ao incentivo.
A dimensão económica acrescenta uma camada suplementar a este xadrez. O principal conselheiro para o investimento do futuro chanceler alemão Friedrich Merz, o ex-banqueiro Martin Blessing, alertou que os investidores estrangeiros reagem com mais nervosismo às propostas de intervenção na propriedade privada da esquerda radical do que aos êxitos eleitorais da AfD. A perceção de risco deixou de estar monopolizada pela extrema-direita, fragmentando o debate e obrigando os partidos tradicionais a calibrar simultaneamente a política migratória e a defesa da estabilidade jurídica e fiscal.
Olhando a partir de Lisboa e de Brasília, o momento europeu oferece lições ambivalentes. Portugal, que também conduziu regularizações extraordinárias e enfrenta um crescimento da imigração, observa como a abertura espanhola gera volume mas não resolve a tensão entre integração laboral e asilo. O Brasil, destino de novas vagas migratórias e com uma diáspora significativa na Europa, acompanha o fracasso da equação “menos imigração, menos populismo” que Berlim e Estocolmo testaram. A narrativa que emerge é a de um continente onde as ferramentas clássicas de gestão de fluxos já não produzem os efeitos políticos esperados, e onde a regularização em massa, o repatriamento alargado e a dureza retórica competem sem que nenhum ofereça uma solução eleitoral duradoura.
Como a mesma história é contada em outros lugares.
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Apesar da queda acentuada nas chegadas, a extrema-direita continua a subir nas sondagens. A crença de que políticas migratórias mais duras reduziriam o apoio populista revelou-se ilusória. A regularização em massa em Espanha é retratada como uma manobra enganosa ou um fracasso político.
O programa extraordinário de regularização em Espanha recebeu quase um milhão de pedidos, muito acima das estimativas iniciais. A medida visa integrar os migrantes indocumentados no mercado de trabalho formal. O elevado número de solicitações é relatado como um facto objectivo, sem juízos explícitos.
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