
Epidemia de Ebola na RDC pode durar um ano e pico ainda está por vir, diz Cruz Vermelha
Com mais de 800 infetados e 192 mortos, o surto da estirpe Bundibugyo avança em zonas de conflito, enquanto países vizinhos e distantes reforçam a vigilância.
O surto de Ebola que atinge o leste da República Democrática do Congo (RDC) desde meados de maio está longe de ser contido e poderá prolongar-se por mais um ano, alertou esta terça-feira a Federação Internacional da Cruz Vermelha e do Crescente Vermelho. “O pico não ficou para trás, está à nossa frente”, afirmou Bruno Michon, responsável pelas operações no terreno, a partir de Bunia, capital da província de Ituri, epicentro da crise. Os números mais recentes, divulgados pelo Ministério da Saúde congolês e pela Organização Mundial da Saúde (OMS), contabilizam 808 casos confirmados e 192 óbitos, com uma taxa de letalidade estimada em 23,8%. A epidemia é causada pela estirpe Bundibugyo do vírus, uma variante rara para a qual não existem vacinas nem tratamentos aprovados, o que agrava a vulnerabilidade das populações afetadas.
A resposta humanitária esbarra num contexto de extrema insegurança. Ituri concentra 93% dos casos e é palco de confrontos entre cerca de cem grupos paramilitares que disputam o controlo de recursos minerais, dificultando o acesso das equipas de saúde. A organização Médicos Sem Fronteiras (MSF) advertiu que persistem “lacunas perigosas” na vigilância epidemiológica, no diagnóstico, no rastreio de contactos e no envolvimento comunitário. Episódios de resistência da população — como a tentativa de recuperar o corpo de uma vítima à força, dispersada por tiros de advertência das forças de segurança — ilustram a desconfiança que compromete a contenção. A OMS reconhece que o vírus continua a expandir-se geograficamente e que “estamos a perder casos”, um sinal de que a dimensão real do surto pode ser superior à oficial.
A dimensão regional da crise é evidente. O Uganda já notificou 19 casos confirmados e um provável, na sua maioria ligados a transmissões a partir da RDC, mas recebeu elogios da OMS pela rapidez da sua resposta. O Quénia, que se considera em risco elevado, ativou equipas de prontidão em 25 condados e realiza sessões de sensibilização bissemanais para profissionais de saúde, embora não tenha registado qualquer caso. Na perspetiva de Brasília, a Agência Brasil sublinha que as guerras que dilaceram o leste congolês há décadas e a redução da cooperação internacional na área da saúde criaram um terreno fértil para a proliferação do vírus. Itália reativou protocolos de monitorização para viajantes oriundos das zonas afetadas, enquanto um médico norte-americano que contraiu a doença numa missão humanitária recuperou e regressou aos Estados Unidos, ilustrando a eficácia dos cuidados quando acessíveis.
Para os países africanos de língua oficial portuguesa, o surto serve de alerta, ainda que não haja casos reportados em Angola, Moçambique ou Guiné-Bissau. Observadores em Lisboa notam que a crise expõe a fragilidade dos sistemas de saúde em contextos de conflito prolongado e a dependência de uma cooperação internacional que tem vindo a diminuir. A Cruz Vermelha e a MSF insistem na necessidade de uma resposta proporcional à escala da epidemia, com mais recursos para a vigilância transfronteiriça e para o desenvolvimento urgente de contramedidas contra a estirpe Bundibugyo. Sem um esforço coordenado que una governos, agências multilaterais e comunidades locais, o leste da RDC arrisca-se a conviver com o Ebola durante muitos meses, num ciclo que testa os limites da arquitetura global de saúde pública.
Como a mesma história é contada em outros lugares.
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Enquanto o mundo acompanha o surto de ebola no Congo, a mídia local nigeriana foca em um surto de cólera no estado de Plateau, com 5 mortes e 11 casos confirmados. As autoridades de saúde estão intensificando as intervenções para conter a disseminação, refletindo uma abordagem pragmática e local, desvinculada do alarme global.
O aumento dos casos de ebola para quase 800 na RDC, causado pela rara cepa Bundibugyo sem vacina ou tratamento aprovados, está gerando alarme. Acredita-se que os números oficiais estejam subestimados devido à detecção tardia e ao rastreamento de contatos que caiu para 56%, sinalizando uma resposta frágil e o perigo de uma disseminação descontrolada.
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