
Brasil nega vistos a enviados de Trump que questionariam urnas eletrônicas
Decisão ocorre após pedido de viagem de diplomatas americanos ser associado a declarações de Flávio Bolsonaro, e reflete tensões entre Lula e Trump às vésperas das eleições de outubro.
O governo brasileiro negou na sexta-feira (24) os vistos a Riley Barnes e Samuel Samson, funcionários do Departamento de Estado norte-americano, que tinham prevista uma missão a Brasília para discutir o sistema eleitoral com autoridades locais. Segundo o Itamaraty, os pedidos foram apresentados em 20 de julho, mas a proximidade com um evento do pré-candidato Flávio Bolsonaro que levantou dúvidas sobre as urnas eletrónicas levou à rejeição, interpretada como uma medida preventiva contra interferência externa.
Na perspectiva de Brasília, a visita configurava um risco de instrumentalização política num contexto eleitoral. Diplomatas brasileiros, ouvidos sob anonimato, descreveram a iniciativa como “completamente incompatível com a democracia brasileira”. Já o Departamento de Estado confirmou a viagem, mas não detalhou o seu propósito. Internamente, fontes em Washington criticaram o uso do poder americano para “minar eleições confiáveis por motivos ideológicos”, segundo o jornal The Washington Post.
O episódio insere-se numa campanha eleitoral marcada pela polarização. Flávio Bolsonaro, oficializado candidato pelo Partido Liberal, repetira informação falsa – já desmentida pelo Tribunal Superior Eleitoral – de que as urnas brasileiras teriam origem na empresa venezuelana Smartmatic. A declaração, feita a diplomatas de 40 países, ecoava a estratégia do seu pai, Jair Bolsonaro, que em 2022 promoveu reunião semelhante e acabou por ser condenado por abuso de poder, ficando inelegível.
A decisão reforça os atritos bilaterais entre o governo de Luiz Inácio Lula da Silva e a administração de Donald Trump. Em março, o assessor Darren Beattie teve o visto revogado ao omitir a intenção de visitar o ex-presidente Bolsonaro. A isto juntam-se as tarifas punitivas impostas por Washington e as críticas de congressistas republicanos à regulação das plataformas digitais no Brasil. Na visão do Planalto, trata-se de uma estratégia de pressão que substitui a tradicional observação eleitoral por um papel de deslegitimação.
Com o primeiro turno marcado para 4 de outubro, o Tribunal Superior Eleitoral já convidou missões da OEA, União Europeia, União Africana e outros organismos, e prevê nova apresentação do sistema de votação a embaixadores em agosto. A recusa dos vistos, formalizada antes da publicação da reportagem do Post, sublinha a determinação brasileira em blindar o processo eleitoral. Resta saber se a diplomacia dos EUA insistirá nessa via ou se adotará uma postura mais contida até ao pleito.
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