
Assinatura de memorando entre EUA e Irão dá início a trégua e a prazo de 60 dias para acordo final
O documento, assinado digitalmente, prevê a reabertura do Estreito de Ormuz, alívio de sanções e negociações sobre o programa nuclear iraniano, mas enfrenta ceticismo em Washington, Teerão e Israel.
Os Estados Unidos e o Irão assinaram na quarta-feira um memorando de entendimento que suspende as hostilidades em todas as frentes, incluindo o Líbano, e compromete as partes a reabrir o Estreito de Ormuz e a negociar um acordo definitivo no prazo de 60 dias. A assinatura decorreu de forma eletrónica: Donald Trump firmou o texto em Versalhes, durante um jantar com o presidente francês, e Masoud Pezeshkian fez o mesmo a partir de Teerão. Trump afirmou na sexta-feira que Washington deixará expirar os 60 dias e que o Irão age por “desesperação”, enquanto o encontro previsto para a implementação do memorando, na Suíça, foi adiado.
As posições das capitais envolvidas revelam divergências profundas. Na perspetiva de Washington, o presidente descreveu o memorando como uma vitória, rejeitou que os EUA contribuam para o fundo de reconstrução de 300 mil milhões de dólares — que, segundo funcionários norte-americanos, deverá ser financiado por parceiros do Golfo — e apontou a subida das bolsas e a descida do preço do petróleo como provas do êxito. O vice-presidente JD Vance pediu a Israel que respeite o processo de paz. Em Teerão, o líder supremo afirmou que Trump procurou o acordo por desespero e que autorizou a assinatura por insistência do presidente e do Conselho Supremo de Segurança Nacional; o porta-voz da diplomacia iraniana sublinhou que “chegou o momento de testar a implementação”. Israel, mantido à margem das conversações, vê o memorando como um mau negócio e o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu reiterou que as forças israelitas permanecerão no sul do Líbano e que o país agirá para impedir um Irão nuclear. Em Paris, Emmanuel Macron qualificou o passo como “sábio”, mas advertiu que “não resolve tudo” e “há riscos”.
O memorando de Islamabad, de natureza política e sem valor jurídico imediato de tratado, prevê o levantamento do bloqueio naval norte-americano no prazo de 30 dias após o acordo final, a libertação de 24 mil milhões de dólares em ativos congelados — condicionada à aquisição de bens humanitários — e isenções às sanções sobre a exportação de crude e produtos petroquímicos. O Irão reafirmou que não procurará armas nucleares e aceitou negociar o futuro do enriquecimento de urânio e do seu stock de material altamente enriquecido, mas as questões dos mísseis e das milícias regionais ficaram de fora do texto. A guerra causou ao Irão perdas estimadas em 270 mil milhões de dólares e destruiu mais de 120 mil unidades residenciais e comerciais, segundo o governo iraniano.
O prazo de 60 dias começou a correr formalmente, mas o ceticismo é transversal. Em Washington, setores próximos dos “falcões” do Irão consideram o memorando mais generoso do que o acordo nuclear de 2015; em Teerão, a desconfiança em relação aos EUA, agravada por duas guerras no espaço de um ano, alimenta a oposição interna. Para importadores de energia como Brasil e Portugal, a perspetiva de normalização do tráfego em Ormuz e a eventual redução dos preços do petróleo representam um alívio potencial, ainda que analistas em Lisboa alertem para a fragilidade de um entendimento que adia as questões mais espinhosas. A próxima etapa concreta será a retoma dos encontros em Genebra, enquanto os negociadores tentam transformar a trégua num acordo abrangente que sobreviva à presidência Trump.
Como a mesma história é contada em outros lugares.
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A Casa Branca apresenta o cessar-fogo de 60 dias como um triunfo para o presidente Trump, que afirma que o Irã está desesperado e será forçado a aceitar as condições americanas. O acordo preliminar é retratado como uma vitória estratégica que mantém a pressão sobre Teerã e evita guerras sem fim.
Observadores europeus veem o quadro de 60 dias como o início de uma negociação difícil, não uma paz definitiva. O memorando é um caminho, não um tratado; Trump cumpriu suas promessas de evitar guerras terrestres, mas a verdadeira batalha sobre questões nucleares e sanções está apenas começando.
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