
A velhice difícil chega mais tarde e dura menos tempo, indicam novos dados sobre envelhecimento
Estudo de Stanford e do MIT revela que os anos vividos com doença grave e dependência estão a diminuir, alterando as projeções sobre o impacto do envelhecimento populacional.
A parte mais dura da velhice não só está a chegar mais tarde como também se tornou mais curta. Um estudo das universidades de Stanford e do MIT, que comparou dados de 1993 e 2017 para o mesmo grupo etário nos Estados Unidos, revelou que o tempo que uma pessoa idosa passa enferma, dependente ou sem autonomia funcional se reduziu significativamente. Enquanto a despesa com pensões subiu 14% no período analisado, o gasto com saúde aumentou apenas 6%, uma diferença que os investigadores atribuem diretamente à menor incidência de anos vividos com doença grave.
Este fenómeno de compressão da morbidade não é exclusivo dos Estados Unidos. A esperança de vida no Peru, por exemplo, aumentou 13 anos desde 1980, e observadores em Lima notam que o padrão de viver mais tempo com melhor saúde se repete. A constatação desafia as projeções de crise fiscal que, desde os anos 1990, tratavam o envelhecimento como sinónimo inevitável de colapso dos sistemas de saúde e previdência. A realidade, segundo os novos dados, é mais matizada: os corpos estão a envelhecer de forma diferente daquela que os modelos económicos anteciparam.
A ciência começa a identificar os mecanismos que sustentam esta mudança. Especialistas suecos do Instituto Karolinska, em Estocolmo, explicam que o processo degenerativo se inicia por volta dos 20 anos, mas os sintomas clínicos só se manifestam décadas depois, dependendo da reserva funcional acumulada. A neuroplasticidade, a capacidade do cérebro de formar novas conexões ao longo da vida, surge como um conceito central. A investigação em psicologia cognitiva indica que a estimulação intelectual contínua, a qualidade do sono e a gestão do cortisol através de práticas como a meditação atuam como fatores protetores da memória e da função executiva.
Na frente da atividade física, o consenso entre treinadores na Argentina, em Espanha e nos Estados Unidos desloca o foco da estética para a autonomia. A partir dos 60 anos, o treino de força deixa de ser medido pelos quilos levantados e passa a ser avaliado pela capacidade de subir escadas, carregar compras ou levantar-se sem ajuda. A Organização Mundial da Saúde recomenda o fortalecimento dos principais grupos musculares pelo menos dois dias por semana, combinado com exercícios de equilíbrio. Em Portugal e no Brasil, onde a população idosa cresce de forma acelerada, a adaptação das políticas públicas de saúde a este novo perfil de envelhecimento — mais longo, mas com menos anos de dependência severa — permanece como o próximo marco a observar.
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