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Mídia e Entretenimentosexta-feira, 24 de julho de 2026

A despedida de um ator de mil rostos: a última imagem de Akbar Abdi

O ícone do cinema iraniano, que personificou a infância de várias gerações, morreu aos 66 anos deixando um legado artístico inconfundível e memórias que dividem opiniões.

Na última fotografia que partilhou nas redes sociais, Akbar Abdi surge ao lado de Ali Daei, o maior goleador da história do futebol iraniano. Era o final de junho, e o ator, visivelmente debilitado, agradecia a Deus pelo estado de saúde “bom” e pela visita do amigo que lhe dera ânimo. Um mês depois, a 23 de julho de 2025, uma paragem cardíaca encerrava, em sua casa, a vida daquele que o cinema iraniano apelidou de “homem dos mil rostos”.

Nascido a 26 de agosto de 1960 no bairro de Niavaran, em Teerão, Abdi começou pelo teatro amador nos anos do pós-revolução. A televisão descobriu-o em programas infantis como “Baz madresam dir shod” (Cheguei Atrasado à Escola) e “Mahaleh Borou Bia” (Vem ao Nosso Bairro), onde o seu talento camaleónico já deslumbrava. A consagração veio em 1986 com “Ejareh-neshinha” (Os Inquilinos), de Dariush Mehrjui, e, sobretudo, em 1989, ao encarnar o deficiente Ghulam-reza em “Madar” (Mãe), de Ali Hatami — papel que lhe valeu o primeiro Simorgh de Cristal, o Óscar iraniano. Ao longo de quatro décadas, Abdi cruzou géneros e idades: foi palhaço, velho, criança e, por três vezes, mulher (em “Adam Barfi”, “Khabam miad” e “Khabzadeha”), desarmando plateias com uma entrega física invulgar que lhe granjeou a fama de “ator de mil faces”.

A notícia da sua morte desencadeou um coro de homenagens que atravessou o espectro político e geracional do Irão. O Presidente Masoud Pezeshkian saudou o artista que “inscreveu o seu nome na memória afetiva do povo iraniano”; o Ministro dos Negócios Estrangeiros, Abbas Araghchi, falou de “um talento excecional que eternizou a cultura do país”. Nas redes sociais, atores como Amin Hayaee e Hamid Ahanghi chamaram-lhe “o melhor cómico do Irão”, enquanto Azadeh Samadi lamentou que “tal talento se tenha perdido nesta terra estranha”. Até o ayatollah Seyyed Hassan Ameli, de Ardabil, sublinhou a admiração do falecido líder por Abdi, descrevendo-o como “um capital artístico que sabia conduzir uma caravana de corações”.

Se a comoção foi quase unânime, a leitura da sua figura expôs as fraturas da sociedade iraniana. Abdi nunca escondeu o alinhamento com o poder: recebeu uma medalha do Presidente Mahmoud Ahmadinejad, elogiou repetidamente o Líder Supremo Ali Khamenei e colaborou com o realizador ultraconservador Masoud Dehnamaki na trilogia “Ekhraji-ha” (Os Expulsos). Para muitos, essas escolhas mancharam o carinho que nutriam pelo ator; para outros, eram expressão legítima de um artista popular que nunca se descolou do quotidiano das classes mais humildes. Nos últimos anos, ele próprio deu sinais de desencanto — como quando criticou a carestia de vida, numa atitude que o aproximava do homem comum.

Ultrapassando polémicas, o que permanece é o modo como Akbar Abdi reinventou a comédia no Irão. Antes dele, o riso nascia de tipos fixos; ele mostrou que até o cómico exige a construção cuidadosa de um personagem. Ao fazê-lo, tornou-se o rosto de incontáveis serões familiares, de Nouruzes partilhados em frente ao televisor, de lágrimas que se misturavam com sorrisos. A foto derradeira com Ali Daei, dois heróis populares lado a lado, comoveu o país. Como escreveu um internauta anónimo: “Eras o retrato dos nossos dias mais simples.”

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A despedida de um ator de mil rostos: a última imagem de Akbar Abdi

O ícone do cinema iraniano, que personificou a infância de várias gerações, morreu aos 66 anos deixando um legado artístico inconfundível e memórias que dividem opiniões.

Na última fotografia que partilhou nas redes sociais, Akbar Abdi surge ao lado de Ali Daei, o maior goleador da história do futebol iraniano. Era o final de junho, e o ator, visivelmente debilitado, agradecia a Deus pelo estado de saúde “bom” e pela visita do amigo que lhe dera ânimo. Um mês depois, a 23 de julho de 2025, uma paragem cardíaca encerrava, em sua casa, a vida daquele que o cinema iraniano apelidou de “homem dos mil rostos”.

Nascido a 26 de agosto de 1960 no bairro de Niavaran, em Teerão, Abdi começou pelo teatro amador nos anos do pós-revolução. A televisão descobriu-o em programas infantis como “Baz madresam dir shod” (Cheguei Atrasado à Escola) e “Mahaleh Borou Bia” (Vem ao Nosso Bairro), onde o seu talento camaleónico já deslumbrava. A consagração veio em 1986 com “Ejareh-neshinha” (Os Inquilinos), de Dariush Mehrjui, e, sobretudo, em 1989, ao encarnar o deficiente Ghulam-reza em “Madar” (Mãe), de Ali Hatami — papel que lhe valeu o primeiro Simorgh de Cristal, o Óscar iraniano. Ao longo de quatro décadas, Abdi cruzou géneros e idades: foi palhaço, velho, criança e, por três vezes, mulher (em “Adam Barfi”, “Khabam miad” e “Khabzadeha”), desarmando plateias com uma entrega física invulgar que lhe granjeou a fama de “ator de mil faces”.

A notícia da sua morte desencadeou um coro de homenagens que atravessou o espectro político e geracional do Irão. O Presidente Masoud Pezeshkian saudou o artista que “inscreveu o seu nome na memória afetiva do povo iraniano”; o Ministro dos Negócios Estrangeiros, Abbas Araghchi, falou de “um talento excecional que eternizou a cultura do país”. Nas redes sociais, atores como Amin Hayaee e Hamid Ahanghi chamaram-lhe “o melhor cómico do Irão”, enquanto Azadeh Samadi lamentou que “tal talento se tenha perdido nesta terra estranha”. Até o ayatollah Seyyed Hassan Ameli, de Ardabil, sublinhou a admiração do falecido líder por Abdi, descrevendo-o como “um capital artístico que sabia conduzir uma caravana de corações”.

Se a comoção foi quase unânime, a leitura da sua figura expôs as fraturas da sociedade iraniana. Abdi nunca escondeu o alinhamento com o poder: recebeu uma medalha do Presidente Mahmoud Ahmadinejad, elogiou repetidamente o Líder Supremo Ali Khamenei e colaborou com o realizador ultraconservador Masoud Dehnamaki na trilogia “Ekhraji-ha” (Os Expulsos). Para muitos, essas escolhas mancharam o carinho que nutriam pelo ator; para outros, eram expressão legítima de um artista popular que nunca se descolou do quotidiano das classes mais humildes. Nos últimos anos, ele próprio deu sinais de desencanto — como quando criticou a carestia de vida, numa atitude que o aproximava do homem comum.

Ultrapassando polémicas, o que permanece é o modo como Akbar Abdi reinventou a comédia no Irão. Antes dele, o riso nascia de tipos fixos; ele mostrou que até o cómico exige a construção cuidadosa de um personagem. Ao fazê-lo, tornou-se o rosto de incontáveis serões familiares, de Nouruzes partilhados em frente ao televisor, de lágrimas que se misturavam com sorrisos. A foto derradeira com Ali Daei, dois heróis populares lado a lado, comoveu o país. Como escreveu um internauta anónimo: “Eras o retrato dos nossos dias mais simples.”

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